Hoje, depois de um dia cansativo na faculdade, sentei num banco de praça para tentar desacelerar. O sol já se escondia por trás dos prédios e o céu ganhava tons de laranja queimado. Ao meu lado, um senhor alimentava pombos com pedaços de pão enquanto sorria, como se o mundo ao redor não estivesse em colapso. Aquilo me fez pensar: existe espaço para o afeto em meio ao caos?
Vivemos numa era barulhenta. É gritaria nas redes sociais, é cobrança por produtividade, é a ansiedade coletiva batendo à porta sem pedir licença. Às vezes, parece que fomos empurrados para um modo de sobrevivência onde ser gentil virou luxo e demonstrar carinho, uma fraqueza. Mas eu tenho a impressão — ou talvez a esperança — de que não seja bem assim.
O afeto, na sua forma mais pura, é um ato político. Dizer “bom dia” com sinceridade, escutar alguém sem pressa, lembrar o nome do porteiro, perguntar se um amigo está realmente bem — tudo isso carrega uma força revolucionária que a gente costuma subestimar. Porque, num mundo que tenta nos endurecer o tempo todo, manter a ternura é resistência.
Eu, com meus olhos azuis que muitos acham frios, tento todos os dias provar que não sou feito de gelo. Tento praticar a escuta, o toque leve, o olhar atento. Nem sempre consigo. Às vezes me fecho, fico ausente, me perco no redemoinho das próprias urgências. Mas sigo tentando. Porque acredito que, enquanto houver afeto, ainda há alguma salvação.
A política do afeto começa no pequeno: no jeito como olhamos, no modo como cuidamos, no tempo que dedicamos. Não resolve todos os problemas do mundo, eu sei. Mas talvez ajude a gente a sobreviver a eles de maneira menos solitária.
Se você leu até aqui, te agradeço. Esse espaço também é um exercício de afeto.
Com carinho,
Matheus
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